domingo, outubro 12, 2008

O gosto do nada

Morno espírito, antigamente afeito à luta,
A Esperança, que te esporeava outrora o ardor
Não te cavalga mais! Deita-te sem pudor,
cavalo que tropeça em tudo e em vão reluta!
Dorme, ó meu coração; desiste, ó força bruta!
Espírito vencido, em ti, velho impostor,
Já não tem gosto o amor, nem o tem a disputa;
Não mais a voz do cobre ou da flauta se escuta!
Deixa esta alma sombria, ó Prazer tentador!
Perdeu a Primavera o seu cheiro de flor.
E o tempo me devora em massa resoluta,
Como a ampla neve um corpo rijo de torpor;
Contemplo do alto o globo túmido e incolor,
E nele nem procuro o abrigo de uma gruta!
Vais levar-me, avalancha, em tua queda abrupta?
**Charles Baudelaire**